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A Princesa da Casa

Eu sou a mãe, ela é a filha - a princesa. Embora às vezes os papéis se invertam!

A Princesa da Casa

Eu sou a mãe, ela é a filha - a princesa. Embora às vezes os papéis se invertam!

Sab | 15.12.12

Maternidade [1]: Será que estou grávida?

Vou à internet, procuro em sites, blogs, fóruns… Procuro dicas, depoimentos, palavras que me respondam à pergunta:

- Quais são os primeiros sintomas da gravidez?

Fico ansiosa. A menstruação não me aparece.

- Serão apenas nervos?

Não tenho náuseas, mas sinto o peito diferente e dorido. E mais sono… Sim, tenho muito sono e muita preguiça…

Talvez a resposta não esteja na internet… Avanço mais um passo e finalmente decido-me pelo teste de gravidez.

Deu positivo! E agora?

 

Um turbilhão de sentimentos invade o meu coração. Sinto-ME confusa, feliz e com medo. Será que vou ser capaz de ser uma boa mãe? Será que vou educar bem esta criança? Fazê-la feliz?

Não sei…

Só sei que ela é apenas do tamanho de um feijão e o meu amor por ela já é do tamanho do mundo…

Qui | 13.12.12

Estátua!

 

 

Pinto a cara de branco como se de um quadro se tratasse. Maquilho-me ao pormenor por forma a reencarnar a minha personagem. Sorrio olhando-me ao espelho e exclamo: - Que olhos perfeitos! De oriental não passo!
Hoje sou gueixa, ontem fui múmia! Há três dias fui rei, amanhã serei palhaço.
Depois de amanhã o que serei? Não sei...
E é assim que todos os dias me transformo no que não sou!
Ora ponho um sorriso alegre, ora um olhar triste! Ora fico irritado, ora cabisbaixo!
Tantas expressões, dezenas de sentimentos, diversos estados que reconheço nos outros mas que não são verdadeiramente meus. Sou um ser que interpreta milhares de eus. 


***


Parado na rua Augusta, agora sou uma estátua. Protejo-me do sol com uma sombrinha vermelha. O vestido diferente e colorido desperta a atenção de alguns transeuntes. Aguardo uma moeda no cesto de vime ainda vazio.
Algumas pessoas olham-me com curiosidade, outros apressados, de fatos caros, bem cortados e pastas de couro na mão, tropeçam em mim com vista e olham-me com desdém.
De súbito, uma rapariga tagarela destaca-se de um grupo de amigos, sorri-me e atira uma moeda para o cesto - a estátua moveu-se por segundos num gesto premeditado - fechei a sombrinha, fiz-lhe uma vénia e voltei a abrir a sombrinha.
O grupo de amigos aproximou-se. Olhares de admiração e sorrisos espontâneos cruzaram-se na rua. Choveram moedas e multiplicaram-se os gestos da estátua movediça.
As crianças sorriam. Os turistas fotografam-me. Os fatos caros, bem cortados e apressados param por segundos.


***


Limpo a cara. Sento-me numa cadeira junto a mesa de jantar vazia e conto as moedas do cesto. Sinto a barriga a roncar, mas ignoro-a, sorrio e exclamo: - Vou comprar um traje novo! Depois de amanhã já sei o que serei!

 

[Ficção - Life Moments]

 

* Fotografia by Alexandre Cibrão - www.acibrao.com

 

Dom | 09.12.12

O homem que recuperou a fé

 

 

A medo Pedro entrou na Igreja. Há anos que deixara aquela porta fechar-se para si. Há anos que perdera a fé. Pedro inalou o cheiro das flores, do incenso e da cera queimada e como se de um gesto rotineiro se tratasse, benzeu-se.
Casara-se ali. Casara-se num dia solarengo de Agosto. Reunira a família e os amigos. A Igreja estava cheia, as crianças brincavam, davam gargalhadas, as mulheres observavam os vestidos alheios, os homens conversavam. De repente, o murmúrio crescente fora quebrado pela valsa nupcial e Débora entrou na igreja. A troca das alianças, as palavras ditas, as promessas e o beijo selavam uma relação e abriam caminho a uma nova vida. E assim foram abençoados.
Pedro escutou o silêncio frio e tranquilizador da Igreja. Observou os detalhes, a nave central, o altar, as colunas, o órgão de tubos. Observou a beleza e o requinte interior face à sua pobreza e estado de espírito. Observou as pessoas, sentadas, esperavam pela missa da tarde. Acreditavam. Eram guiadas pelo dito Deus.
Pedro também fora uma ovelha do Seu rebanho. Mas de um momento para o outro o dito Deus desapareceu da sua vida. E foi numa tarde de Agosto, também solarenga, que alguém o avisara que a mulher fora atropelada. Débora tinha ido almoçar com uma amiga no centro da cidade movimentada. Ao atravessar a estrada sem olhar, o sinal verde caíra, mas um carro desvairado ignorara a sinalização e embatera nela. Débora estava grávida de quatro meses. O seu corpo lutara pela vida, mas não resistira e a criança também não.
Que Deus é este que nos tira quem amamos sem aviso prévio? Que Igreja é esta que nos impõe mandamentos e não nos salva dos infortúnios? Pedro sentiu os remorsos entranharem-se pelo seu corpo. A bênção do casamento não lhe servira de nada. Deus ofereceu-lhe a felicidade para depressa a tirar. 
Pedro sentou-se. Olhou Cristo na Cruz, procurou Deus nas paredes ornamentadas, nos frescos detalhados e como se de repente a fé reprimida ressuscitasse dentro dele, pediu-Lhe para partir. Pediu-lhe para ir ter com Débora!

 

[Ficção - Life Moments]

 

* Fotografia by Alexandre Cibrão www.acibrao.com